junho 16, 2007

Tudo


Tudo é para ti.
As palavras
murmuradas, escritas, proferidas, ditas, gritadas.
Tudo é para ti.
O meu acordar
porque não adormeço perto de ti,
insónia sem fim.
Tudo é para ti.
O meu olhar
porque não quero sequer pestanejar,
até que ardam meus olhos de fitar os teus.
Tudo é para ti.
Meu correr apressada atrás do ponteiro dos segundos
porque esperas o meu apressado atraso.
Tudo é para ti.
O bater do meu coração, de suave e decidido
a forte e descompassado.
Tudo é para ti.
Para sentir a tua pele
que me veste, protege na sua sombra.
Tudo é para ti.
O respirar difícil, o inspirar profundo, o expirar quente
da loucura ardente.
Tudo é para ti.
O alimento que provo,
o doce do prazer, o sal de osmose
para que entranhe na tua pele,
processo electroquímico.
Tudo é para ti.
Expressões de tranquilidade, bem-estar
traduzem-se em sorriso e mímica.
Tudo é para ti, por mim, para nós, por ambos.

adc

junho 14, 2007

Distância

Verso ou inverso
Baixo ou cima
Esquerda ou direita
Perfeita ou imperfeita
Sentimentos controversos
De ódio ou estima...

Aconselhável distância

adc

maio 23, 2007

Abraço

Entre o sono apareces
resoluto, sem mais nem porquês,
sem som, só imagem e toque.
Mãos dadas, encostadas as faces
que vejo, que vês?
Pele na pele
que sinto, que sentes?
Desejo, beijo,
abraço tão real, intenso,
pleno de ilusão, impossível
de tão intensa vontade
desse envolver, repousar
em suspirada proximidade.
Segundos de devaneio
abraço, aperto, aninhar
entre ombro e queixo, nesse espaço
como se fosse minha morada esse apertar.
Acordo num sobressalto de tranquilidade,
amanheço na segurança desse tocar,
desperto na quietude do teu abraço.

adc

maio 10, 2007

Vós, quem sois?

Hugs Study by Doug Hyde


Somos os laços que atamos
no caminho empedrado que pisamos.
Somos os nós que apertamos, abraçamos, beijamos
nomes, caras, expressões, pessoas, personagens.
Somos guardados em flashes de sons e imagens
no pestanejar de quem nos ouviu e viu,
somos paisagens.
Somos os vínculos criados
nas ruas, travessas e becos cruzados
com estranhos, conhecidos, colegas, amigos e amados.
Somos todos os abraços sentidos e apertados.
Somos matérias, somos espíritos,
corpos, elementos e ritos.
Somos, ficamos, estamos.
Somos, pertencemos, causamos.
Somos, consistimos, acontecemos.
Somos e desaparecemos.


adc

maio 09, 2007

Impronunciável incoerência

Inconstante
amigo, amante
aterra por aí.
Incoerente
tão igual e tão diferente.
Inconsequente,
mede o que lá vem.
Inacessível com filtro...
fumado até à última.
Incompreensível
atracção.
Inexplicável
luz do dia
Apetecível
amendoim salgado,
fatia de bolo de chocolate.

adc

maio 03, 2007

Vício

Vício das palavras
Afastamento do normal no discurso
Acção imoral de jogar com palavras
Impertinência de frases e sintagmas
Libertinagem de rimas e ritmos
Corruptas associações de vocábulos
Lasciva composição de termos
Redacção de sílabas ordenadas
Só para registar ansiedades de campos semânticos diversos
E a fascinação pelos sons padronizados, persistentes na minha razão.

adc

abril 21, 2007

Apenas uma lágrima

Apenas uma lágrima
rola na minha face.
Valerás apenas uma
dolorosa, intocável...?
Pelo menos tudo molhasse.
Fosse um rio, um lago, um mar
gritando em tempestade.
Apenas uma lágrima
evaporou, condensou e é nuvem.
Valerás um céu cinzento?
A lágrima já não vem,
perdeu-se na sua queda
e enxugou ao vento.
Não posso pagar nessa moeda!

adc

abril 16, 2007

Num sol laranja de final de tarde,
Relembro-te num pestanejar de saudade,
Recordo-te salgado e alheado.
Entre a melodia electrónica e o ritmo natura,
O som do mar ou a luz de projectores,
A adrenalina de deslizar ou o deleite da caminhada serena,
A imagem tua perdura
Sempre que vieres, sempre que fores.

adc

abril 01, 2007

Por favor

Faz-me o favor
de não perturbar
esta minha harmonia.
Faz-me o favor
de não reordenar
as prioridades do meu dia.
Faz-me o favor
de me deixar entregue
à minha confortável narcolepsia.
Faz-me o favor
de me soltar
tranquila no meu bem e no meu mal.
Faz-me o favor
de me permitir
não ser convencional.
Faz-me o favor
de não alterar a minha posição fetal.
adc

março 29, 2007

Luz

Luz ténue, imagem desfocada e rasto de incerteza,
Farol distante para que não choque,
Lanterna intermitente de inquietude.
É invisível a beleza!
Escureceu para que se não toque,
Para que se não altere ou mude
Quando nasce o dia?
De sombra em sombra,
Arrasta vontade e fantasia.
Já naufragou no intervalo do farol,
Na névoa da indecisão,
No apagar da lanterna impaciente
Sem raio de Sol,
Não ilusão,
Estado dormente.
Afundou no mar da tranquilidade
Não da Lua, do interior
Longe da não verdade
Da noite sem calor.
Luz de presença
Da minha ausência.

adc

março 22, 2007

Paisagem

A espuma das ondas rola na areia
em flocos leves de algodão que se desvanecem.
O vento insiste num assobio constante,
tudo em seu redor se despenteia.
A areia imita um nevoeiro intenso
numa tempestade brilhante.
As dunas vão decerto se mover.

A gaivota paira no mesmo espaço sem horários a cumprir.
O Sol intenso aclara o gelado entardecer.
As ondas sucedem-se em desalinho, despenteadas, num tom esverdeado
parecem indecisas em chegar à praia.

adc

março 18, 2007

Podes crer sem motivo?
Não creio, somente sobrevivo...
Ou não?!
Podes acreditar sem razão?
Foge o entendimento
Do que vive fora do coração.
Podes recear sem causa?
Com ou sem questão
Caminho a controlar, evitar.
Podes confiar sem porquê?
Cativando, hipotecando o viver
Ou...
Cativando e fascinando o olhar.

adc

março 11, 2007

Entre meio

Entre nós
há tu, eu,
luz, olhar,
há pequenos nós
que se entrelaçam e desatam.
Entre, no meio
o que escureceu,
o que ficou para dar,
há todo o espaço
para o que faço e não faço.

adc

março 07, 2007

Escreve-me

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca