junho 18, 2008

Fita

Guita pendura, amarra, ata pouco bonita
Não escapo entre nó cativa.
Consistente assim, forte fita de nastro,
Me apresento à luz de cuidados, coerente.
Atilho de vestido não é somente decorativo ou enfeite colorido,
Atracção atada do olhar à lua, de átomo a astro.
Fita de cetim de excessivo fulgor, exagerada ousadia,
Compõe laço no cabelo impedido de esvoaçar e reflectir a luz do dia.
Fita de seda ou organza adorna o pulso,
Segura tesouro com confiança ou simples missanga,
Conforme o desafio inesperado, apetecido
Brilhante, suave, delicada
Guita, fita, cordão umbilical que liga mundos, emoções, planos, dimensões
De energia, pele, impressões…
Amarrada, laçada ou livre, esvoaçante guita, atilho, tira, cordel… uma fita.

adc

maio 28, 2008

Olhares

Olhares frios, amedrontados, olhares tristes e envergonhados
Olhares tantos e tantos olhares…
Há sede de olhares!
Olhares azuis, verdes ou castanhos, não interessa a cor, raça ou sequer tamanhos!
Olhares…
Olhares que observam alguém, que se cruzam, olhares que se admiram e se criticam também.
Olhares que ambicionam, olhares que perturbam, que penetram e olhares que te rasgam.
Há imensos olhares passageiros… sinto sede de olhares, olhares verdadeiros!
Olhares que saciam e satisfazem.
Quero mais e melhores olhares…
Aliás quero um olhar! Um olhar intenso, olhar real. Um olhar que aqueça, olhar que estremeça e me adormeça…
Não sei onde ele está! Olho em redor, olho em diante… estará assim tão distante? Quero esse olhar sincero… Onde pairam os olhares?

Andreia Peres

maio 04, 2008

Aqui

Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito,
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro
Pelo qual sou proscrito.
O erro de querer ser igual a alguém
Feliz em suma — quanto a sorte deu
A cada coração o único bem
De ele poder ser seu.

Ricardo Reis

abril 28, 2008

Mimo

Os mimos nunca são demais... sabem bem! São o doce dos dias...
Grata pela atenção de quem me lê e mima.
Quem quiser pegar no trevo, sinta-se abraçado e mimado...

abril 16, 2008

Sabor a...

Abriga-me
Conforme a taça do doce
Misturado de cacau,
Nos lábios saboreados,
Sabor a ti,
Fundindo, queimando.
Guardo-te
Como quadradinho de chocolate
Embrulhado em prata amarrotada,
Nas tuas mãos, nos teus braços,
Abraçados,
Derretendo, fervendo.

adc

abril 05, 2008

Maquilhagem

Sem batom e não oculta palavras,
Essas serão sempre suaves e duras, doces e amargas.
A sombra, o risco negro escondem a lágrima, o brilho nublado do olhar.
Pó-de-arroz e blush cobrem a palidez da desilusão do caminho,
Apaga as marcas, as mossas da viagem.
Adorna a expressão… absorve toda a luz da paisagem.
Retrato, ao espelho, de alma colorida…
de maquilhagem e acasos da vida.

adc

março 21, 2008

Sigo

Faço a mala, viajo para longe de mim,
distante das pessoas que sou.
Rasgo os papéis que escrevo, rascunhos que interpreto
queimo-os no cinzeiro ou a céu aberto.
Faço a mala e digo silenciosamente que não estou,
que vou, rota incerta, estrada aberta, apenas caminhar,
até perder o vagar sem rumo,
assumir um único trilho apagando rastos, sinais, vestigios ou só voltar costas.
Encontrar o equilíbrio, nível, o fio de prumo.
Descobrir-me algures entre decisões
com a bagagem leve, sem necessitar de abrigo.
Faço a mala, por outro atalho, sem pressa... sigo.

adc

março 03, 2008

Concreto vs Abstracto

Torna concreto teus abstractos.
Esculpe visível o sorriso, o olhar brilhante.
Devolve ao perto a presença distante, algo que se possa agarrar... braço, cintura em nó, sem desatar a existência palpável, tocada e abraçada.
Traduz os teus rascunhos em texto legível.
Emite palavras que transformam o inaudível.
Converte o desejo em saborear, substitui a água na boca pelo doce provar, digerir, gostar.
Imagina os sentidos em harmonia.
Transforma as notas florais em perfume de amar, cheira o aroma , a fragrância do abraçar.
Inventa o real dos teus ideais.
Revela concretos os pensados sentimentos, as sensações auxiliadas por figuras de estilo... recursos expressivos concretizando a fantasia.
Mostra quem és no primeiro acto e vive o concreto do pensado abstracto.

adc

fevereiro 28, 2008

Mais do que um beijo
preciso das palavras
que façam sentido, se façam ouvir,
que encaixem no desejo.
Mais do que um abraço
preciso da presença
olho no olho, pele na pele
sem ar, sem tempo ou espaço.

adc

fevereiro 10, 2008

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

fevereiro 06, 2008


Rendo-me, vendo-me às vossas ofertas e aqui estou, na primeira pessoa, a nomear os blogs que me fazem pensar... embora o tempo me escape mais vezes do que as que desejava e não os consiga visitar a todos.


...magia, palavras e outras coisas...


A Papoila


Fora de mim


Impulsos


Instantes de um Louco


Palavras Soltas... Letras Trocadas


Ponta Solta


Serenismo


Taradisses


... entre outros.

Agora terão que indicar outros blogs que não vos saem da cabeça ou que por uma razão ou outra vos perseguem... ;)

Agradecida pelas outras ofertas.

janeiro 28, 2008

Espaços vazios

Preenche os espaços vazios, a cadeira, o lugar à mesa, o copo, o prato.
Preenche as horas do final do dia. Ocupa os segundos que teimam escapar, tempo de espera, tempo que mato.
Preenche o silêncio que adormece.
Abre a gaveta vaga, usa a toalha do par.
Ocupa a almofada do lado, substitui a noite que arrefece.
Escreve nas linhas, nas margens das folhas.
Liga o interruptor e prenche de luz tudo que olhas.
Ouve as palavras e responde às questões... segredar, murmurar. Formula respostas que tapam as fendas do caminho a pisar.
Preenche os espaços vazios da boca, do respirar, o espaço vazio das mãos.
Obriga-me a abrir a janela pela manhã.
Preenche o escuro com luz do sol e sal do mar.
Balança a minha tranquilidade e alimenta o meu acordar.

adc

janeiro 17, 2008

Frestas


Uns com imenso tempo... outros com escasso.
Uns com escassas palavras... outros com imensas.
De tempo e palavras, preenchemos as frestas do chão que pisamos!

adc

dezembro 17, 2007

Quantificar a dor em miligramas de morfina,
medindo o equilíbrio na dosagem...
procurando o alívio no mundo dos sonhos.
O auxílio de Morfeu,
na sonolência abrigando-se
a dor de alterada imagem do exterior e interior do eu.
Quantificar o sofrimento em lágrimas, em cápsulas
da dor que sabe a sal e não passa na epiglote,
geme e zune no tímpano,
se espalha nas terminações nervosas livres
e rasga a pele... por dentro, por fora.
Rasga o tempo pretérito
mergulha no tempo agora.
Mede o poder de um sorriso
sem esforço, espontâneo.
Essa dor que vi em ti,
entranhou em mim sem consentimento
despedaçando a expressão do olhar,
dilacerando a consistência do sentimento do juízo.

adc