Vou à estante desarrumar, destacar, desviar a poesia que incomoda nos livros fechados.
dezembro 27, 2006
Estrada
Leva a uma praia
Essa estrada
Guia segura para que não caia
Essa estrada
De linhas curvas é apertada
Aperta, asfixia
Essa estrada de verde ladeada
Perigosa, tortuosa
Essa estrada
Fria, nublada
Enganada, sem ninguém
Nunca existiu essa estrada
A todas as horas
Sem horas, demoras nessa estrada
Essa estrada de vai e vem
Essa estrada
Pouco a pouco despistada
Ainda a percorro
Sem fim, sem princípio
Metro a metro lá morro
adc
novembro 26, 2006
Faz-me o favor...
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny
novembro 16, 2006
novembro 15, 2006
Ninguém
Olhos de mãe fitam sem pestanejar
Arrefecem sem querer, as mãos de ninguém
Mãos de mãe aquecem até adormecer
Penduram brincos só para se ver, os ouvidos de ninguém
Ouvidos de mãe sem ouvir vão compreender
Enche-se do falso perfume de boiões, o nariz de ninguém
Nariz de mãe sente o aroma de preocupações
Insípida ao beijar, a boca de ninguém
Boca de mãe não come sem alimentar
Ninguém, vive a mentir
Marés vivas
Marés vivas
Águas turbulentas
Agitação
Ondas de ansiedade
TempestadeInquietação
No suceder de segundos infalívelEnche as ruas de águaEnche minh'alma de mágoaEscoa pelas sarjetasEscoam lágrimasAtracçãoPelo incerto, pela desgraçaPelo ínfimo espaço abertoEscorre por entre fraquezaEntranha na pele indefesaPor dentro amassaSeca tudoA maré acalmaTranquilizaSeca também a almaPor alguns instantesJamais será antes
adc
novembro 06, 2006
outubro 18, 2006
Quero partilhar!

Como se fosse (s de linho doce) Agosto... chego sempre atrasada... quase em tudo na vida.
Árvores (no deserto) de amizade verdinhas e frondosas permaneçam e surjam nas nossas vidas.
Mulher (da erva) é sinónimo de mãe, de habilidosa, corajosa, voluntariosa como tu.
A Moda (da lavoura) pode passar, voltar outra vez, mas espero que tu fiques.
O poder de diálogo, de abertura, de confiança, de dedicação, marca a tua presença.
A uma escrava que lhe ocultou o sol, não importa, porque a lua e o mar são igualmente reconfortantes.
Saias ou calças, saias ou fiques, escolho que fiques por perto.
Conta-me contos, a mim ensina-me a contar e às tuas crianças abre janelas.
E alegre se fez triste... espero que não, escolho o itinerário inverso para ti, porque eu ficarei mais alegre também.
O que ficou no ar parado: a confiança e segurança que tenho em ti, o querer fazer mais para te apoiar e não chegar lá, a amizade para além do quotidiano profissional.
Poema é tudo o que fazemos no espaço da nossa profissão, é tudo o que desejamos alcançar, porque assimilámos como uma missão a docência.
Poema nem sempre é estar de acordo, pode ser o caminho para o consenso ou o equilíbrio, o caminho para tudo na vida.
Mas, que não seja um poema de palavras sofridas e negras. Para ti quero um poema acompanhado da melodia de uma viola, de um piano com o poder de sorrisos à mistura e todas as cores do arco-íris no teu olhar.
adc
outubro 15, 2006
Caminho
| Percorro, de momento, o caminho das primeiras letras... das primeiras frases e das primeiras leituras ouvidas, faladas e pensadas... Não me resta muito para a reflexão, a procura, dentro e fora de mim. Vou tentar socorrer-me mais vezes do caderno de campo que anda perdido no meio de todos os outros cadernos, folhas... De certeza que, no meio desta desarrumação, vou tropeçar em algo que me toque... adc |
outubro 05, 2006
Professores
outubro 01, 2006
ROMEO:

O, she doth teach the torches to burn bright!
It seems she hangs upon the cheek of night
Like a rich jewel in an Ethiope's ear;
Beauty too rich for use, for earth too dear!
So shows a snowy dove trooping with crows,
As yonder lady o'er her fellows shows.
The measure done, I'll watch her place of stand,
And, touching hers, make blessed my rude hand.
Did my heart love till now? forswear it, sight!
For I never saw true beauty till this night.
setembro 28, 2006
Mãe
Mãe é... |
setembro 25, 2006
Não é fácil o amor
melhor seria arrancar um braçofazê-lo voar
Dar a volta ao mundoabraçar todo o mundofazer da alegria o pão nosso de cada dianão copiar os males do amormatar a melancolia que há no amorquerer a vontade fria
Ser cego surdo mudonão sujeitar o amor ao destino de cada umnão ter destino nenhumser a própria imagem do amorPôr o coração ao largonão sofrer os males do amornão vacilarter a coragemde enfrentar a razão de ser da própria dor
porque o amor é tristenão é fácil o amorLuís Andrade
setembro 24, 2006
Os olhos do poeta
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.
Manuel da Fonseca
setembro 21, 2006
Cantiga, partindo-se

Senhora, partem tam tristes Meus olhos por vós, meu bem, Que nunca tam tristes vistes Outros nenhuns por ninguém. Tam tristes, tam saudosos, Tam doentes da partida, Tam cansados, tam chorosos, Da morte mais desejosos Cem mil vezes que da vida. Partem tam tristes os tristes, Tam fora d'esperar bem, Que nunca tam tristes vistes Outros nenhuns por ninguém. João Roiz de Castell-Branco |



