janeiro 25, 2007

Luzes e vozes

Colecciono sons, murmúrios, vozes
Colecciono imagens, fotografias, luzes
Embalo-me nas vozes que ecoam
Aconchego-me nas luzes que aquecem
Mesmo que os olhos me doam
Esses mesmos olhos não esquecem
Mesmo que os ouvidos emitam
Zumbidos incómodos que entorpecem
Nada mais perturba meu sono
Nada mais condiciona meu eu
Eu reproduzo todas as vozes
Eu antecipo todas as luzes

adc

janeiro 02, 2007

Sempre para sempre

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele
Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante
Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão
Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado
Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue, bem quente
Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca, nunca tocado
Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso
Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada, mas nada
Te faz contente, me faz contente
Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido
Há amor eterno
Sem nunca, talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez
Há amor de certezas
Que não trará dor
Amor que afinal
É amor,
Sem amor
O amor é tudo,
Tudo isto
E nada disto
Para tanta gente
É acabar de maneira igual
E recomeçar
Um amor diferente
Sempre, para sempre
Para sempre

Miguel A. Majer

dezembro 27, 2006

Estrada

Essa estrada
Leva a uma praia
Essa estrada
Guia segura para que não caia
Essa estrada
De linhas curvas é apertada
Aperta, asfixia
Essa estrada de verde ladeada
Perigosa, tortuosa
Essa estrada
Fria, nublada
Enganada, sem ninguém
Nunca existiu essa estrada
A todas as horas
Sem horas, demoras nessa estrada
Essa estrada de vai e vem
Essa estrada
Pouco a pouco despistada
Ainda a percorro
Sem fim, sem princípio
Metro a metro lá morro

adc

novembro 26, 2006

Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

novembro 15, 2006

Ninguém

Procuram sem encontrar, os olhos de ninguém
Olhos de mãe fitam sem pestanejar
Arrefecem sem querer, as mãos de ninguém
Mãos de mãe aquecem até adormecer
Penduram brincos só para se ver, os ouvidos de ninguém
Ouvidos de mãe sem ouvir vão compreender
Enche-se do falso perfume de boiões, o nariz de ninguém
Nariz de mãe sente o aroma de preocupações
Insípida ao beijar, a boca de ninguém
Boca de mãe não come sem alimentar
Ninguém, vive a mentir
Mãe não vive sem sentir
adc

Marés vivas

Marés vivas
Águas turbulentas
Agitação
Ondas de ansiedade
Tempestade
Inquietação
No suceder de segundos infalível
Enche as ruas de água
Enche minh'alma de mágoa
Escoa pelas sarjetas
Escoam lágrimas
Atracção
Pelo incerto, pela desgraça
Pelo ínfimo espaço aberto
Escorre por entre fraqueza
Entranha na pele indefesa
Por dentro amassa
Seca tudo
A maré acalma
Tranquiliza
Seca também a alma
Por alguns instantes
Jamais será antes

adc

outubro 18, 2006

Quero partilhar!


Como se fosse (s de linho doce) Agosto... chego sempre atrasada... quase em tudo na vida.

Árvores (no deserto) de amizade verdinhas e frondosas permaneçam e surjam nas nossas vidas.

Mulher (da erva) é sinónimo de mãe, de habilidosa, corajosa, voluntariosa como tu.

A Moda (da lavoura) pode passar, voltar outra vez, mas espero que tu fiques.

O poder de diálogo, de abertura, de confiança, de dedicação, marca a tua presença.

A uma escrava que lhe ocultou o sol, não importa, porque a lua e o mar são igualmente reconfortantes.

Saias ou calças, saias ou fiques, escolho que fiques por perto.

Conta-me contos, a mim ensina-me a contar e às tuas crianças abre janelas.

E alegre se fez triste... espero que não, escolho o itinerário inverso para ti, porque eu ficarei mais alegre também.

O que ficou no ar parado: a confiança e segurança que tenho em ti, o querer fazer mais para te apoiar e não chegar lá, a amizade para além do quotidiano profissional.

Poema é tudo o que fazemos no espaço da nossa profissão, é tudo o que desejamos alcançar, porque assimilámos como uma missão a docência.

Poema nem sempre é estar de acordo, pode ser o caminho para o consenso ou o equilíbrio, o caminho para tudo na vida.

Mas, que não seja um poema de palavras sofridas e negras. Para ti quero um poema acompanhado da melodia de uma viola, de um piano com o poder de sorrisos à mistura e todas as cores do arco-íris no teu olhar.

adc

outubro 15, 2006

Caminho

Percorro, de momento, o caminho das primeiras letras... das primeiras frases e das primeiras leituras ouvidas, faladas e pensadas...

Não me resta muito para a reflexão, a procura, dentro e fora de mim.

Vou tentar socorrer-me mais vezes do caderno de campo que anda perdido no meio de todos os outros cadernos, folhas...

De certeza que, no meio desta desarrumação, vou tropeçar em algo que me toque...

adc

outubro 05, 2006

Professores

Se os teus projectos forem para um ano,
semeia o grão.
Se forem para dez anos,
planta uma árvore.
Se forem para cem anos,
educa o povo.
Provérbio chinês

setembro 28, 2006

Mãe

Mãe é...
Querer bem
Preocupação
Ter um aperto no coração
Não dormir
Estar ansiosa
Saber ouvir
Sempre carinhosa
Ter quem amar
Por mim esperar
Ver-me e sorrir
Ter esperança
Não desistir
Não querer incomodar
E tudo compreender
Mãe é...
Um abrigo, porto seguro e o nosso lar também.

adc

setembro 25, 2006

Não é fácil o amor


Não é fácil o amor
melhor seria arrancar um braço
fazê-lo voar
Dar a volta ao mundo
abraçar todo o mundo
fazer da alegria o pão nosso de cada dia
não copiar os males do amor
matar a melancolia que há no amor
querer a vontade fria
Ser cego surdo mudo
não sujeitar o amor ao destino de cada um
não ter destino nenhum
ser a própria imagem do amor
Pôr o coração ao largo
não sofrer os males do amor
não vacilar
ter a coragem
de enfrentar a razão de ser da própria dor
porque o amor é triste
não é fácil o amor

Luís Andrade

setembro 24, 2006

Os olhos do poeta

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.



Manuel da Fonseca