setembro 21, 2006

Cantiga, partindo-se


Senhora, partem tam tristes

Meus olhos por vós, meu bem,

Que nunca tam tristes vistes

Outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,

Tam doentes da partida,

Tam cansados, tam chorosos,

Da morte mais desejosos

Cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,

Tam fora d'esperar bem,

Que nunca tam tristes vistes

Outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castell-Branco

setembro 17, 2006

Máscaras



Coloca uma máscara que oculte a tristeza,

Um sorriso que mostre certeza,

Disfarce que pare a ansiedade.

Coloca um olhar que esconda a verdade,

Coloca uma máscara que te dê cor,

Que te facilite o caminho.

Acalme o tremor.

Que se cole a ti e adoce um sorriso definitivo.

Outro eu vivo.

adc

setembro 16, 2006

setembro 14, 2006

A beleza


A beleza
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza
Não é mais do que o desejo
Fremente
Que nos sacode...
- O resto, é literatura.


António Botto

setembro 07, 2006

Picasso -... ao espelho...


Poema da Menina Tonta

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,

cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda

e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados

com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda

a boca sem desejos
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

Manuel da Fonseca

setembro 01, 2006

Picasso - Blue Nude


O Livro dos Amantes IX

Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficámos nas paredes do vento

a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia

agosto 31, 2006

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade

agosto 24, 2006

Quanto de ti, Amor...


Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.


Jorge de Sena

agosto 03, 2006

Pele na pele




Pele na pele
Suave, quente
Murmura tudo
Mas não mente
Pele na pele
Aroma, sente
Entranha e perdura
Calmamente
Pele na pele
Esmaga, aperta
No colo segura
Arranha e fica
Pele na pele
Encosta, aquece
Abraça e não esquece
Pele na pele... ela adormece.

adc

julho 27, 2006

Adeus


(...)

Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la:
Alta está no firmamento
De mais, e de mais é bela
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
Donde me vem sangue às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra - e não cabe
Nele uma ideia dos Céus ... Oh!, vai, vai; deixa-me adeus.


Almeida Garrett

julho 25, 2006

Falso!?

Os olhos são o espelho da alma ou...
The false mirror - René Magritte

Estátua Falsa

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,

Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;

Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,

Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

Mário de Sá-Carneiro

julho 20, 2006

Importuna Razão, não me persigas


Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;

Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.

Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.

Bocage