setembro 09, 2007

Deixa ficar a música...
Aquelas frases
Sem razão, sem lógica.
Deixa ficar o aroma
Do perfume que trazes.
Deixa ficar o idioma
Que aprendi de ti envolta,
De ouvido em ouvido encostar,
De nariz no ar.
Sem guerra, sem ódio, sem revolta...

adc

setembro 04, 2007

Coccinella septempunctata


Joaninha perdeu-se no vôo
Voando sem destino, sem companhia
Só de asas e sem motor.
Joaninha perdeu-se de amor
Não é elegante como a borboleta
É pequena, redonda e bicolor.
Joaninha voou bem alto
Sem avião, sem avioneta.
Voou formosa, curiosa, pelo verde inquieta.
Joaninha de duas cores,
Preto da sombra em que se esconde,
Vermelho sangue de mágoa ou paixão.
Joaninha perdeu-se no verde
Por outras pintas encantada,
De boa sorte esperançada
Esvoaçou atrás de um pulgão.
Joaninha, na voz de uma criança é cantarolada
Sempre que pousa na sua mão.
Suas sete manchas pretas
São sete tranças perfeitas
De negro exterior e brilho encantador.
Dois pares de asas:
Umas apenas as expõe se segura sentir sua alma,
Asas transparentes de fino papel onde regista sua afeição,
Outras duas asas são a capa que distrai, ilude, encanta, enfeita e
Por outro lado, a protege e a esconde da vida imperfeita.
Joaninha é inofensiva, protectora dos jardins,
bela, silenciosa e outros adjectivos afins,
hiberna até que o tempo se torne acolhedor, quentinho, luminoso...
Primavera, tempo de amor.
De metamorfoses sua vida se compõe
larva, ninfa, escaravelho, pequeno insecto voador
raro brinquedo de criança.
Joaninha voa, voa
Vai procurar o teu amor
Nunca percas a esperança.

adc

setembro 01, 2007

Tudo o que é preciso para viver



Esqueci o tempo que nos foi comum como se um derrame enevoasse, no meu cérebro, a luz do filme passado.
Procuro recordar-te com imagens nítidas e coloridas, mas o álbum é antigo e o cinzento domina, dissipando-se a nitidez quanto maior é a saudade de ti.
Encontro apenas palavras avulso que leio de páginas desbotadas da minha mente. Já nem conheço quem as tenha registado.
Anseio ouvir o timbre da tua voz em casa, numa rua qualquer (deste local que escolheste para viver) em que já não me lembro se ouvi...
Esqueci o som da tua voz que me esforcei tanto por gravar, porém as formas de registar o som são já tão distantes das usadas e conhecidas por ti.

Procuro os teus olhos iguais aos meus, com a mesma luz, com a mesma cor, mas não basta olhar-me ao espelho.
Encontro, neste tumulto, apenas lágrima e saudade da segurança do teu colo, do teu embalar.

Anseio que chegues para conseguir finalmente adormecer e ser capaz de acordar quando tu acordares, para me despedir (só por mais um dia).

Se não chegares, tenho que crescer, cuidar de todos e não posso adormecer.
Na tua ausência, não voltarei a brincar, a falar, a sorrir demasiado, tenho que me concentrar e ser responsável para te poder voltar a ver.
Assim, não confio em mais ninguém porque é contigo que eu quero aprender, arriscar e brincar.

Aguardo que voltes e me dês a mão para atravessar a estrada, me ponhas às cavalitas, me dês um doce, me eleves no ar, me chames todos os diminutivos, me adormeças na tua segurança.

Chhhhh....! Não posso conversar sobre ti, porque não quero magoá-los com a saudade que também sentem. Não posso falar de ti porque não chorei todo o mar que devia. Não posso esquecer-te porque sou parte de ti.

Permanece em mim, segreda-me o caminho.
É importante que voltes, quero ser a criança que perdi e ainda não me ensinaste tudo o que é preciso para viver.



adc

agosto 26, 2007

Nesse contemplar

nesse contemplar sério, medir a transparência do cristalino
olhar entre ruídos e interrupções do acaso
nesse encontro imprevisto, olhar sem missão
tempo após tempo... pestanejar após pestanejar
involuntária procura como se aí descansasse a íris
desafio de fitar até que escorregue outra expressão
acto irreflectido de aí repousar nesse observar
como jogo, testar a intenção imprevista e a demora do avistar
olhar nesse olhar até que nada interrompa, acorde dessa outra dimensão
trocar o olhar por sorriso de encontro sem marcação

adc

agosto 20, 2007

Miedo

Tienen miedo del amor y no saber amar
Tienem miedo de la sombra y miedo de la luz
Tienem miedo de pedir y miedo de callar
Miedo que da miedo del miedo que da
Tienem miedo de subir y miedo de bajar
Tienem miedo de la noche y miedo del azul
Tienem miedo de escupir y miedo de aguantar
Miedo que da miedo del miedo que da

El miedo es una sombra que el temor no esquiva
El miedo es una trampa que atrapó al amor
El miedo es la palanca que apagó la vida
El miedo es una grieta que agrandó el dolor

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá
Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá
O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como un laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tienem miedo de reir y miedo de llorar
Tienem miedo de encontrarse y miedo de no ser
Tienem miedo de decir y miedo de escuchar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá
O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo
Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara, medo de encarar
Medo de calar a boca, medo de escutar
Medo de passar a perna, medo de cair
Medo de fazer de conta, medo de dormir
Medo de se arrepender, medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez
Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá
Miedo... que da miedo del miedo que da

Lenine

julho 27, 2007

Urgente tempo

Uns a seguir aos outros, os segundos caem.
O coração bate a acompanhar
o ritmo dos dias que se sucedem
sem parar, sem pausar.
Sensações de angústia, ansiedade tendem a aquietar.
Melopeia de pulsação serena rima e toca
ao sabor da pressão arterial, social.
Cerra as pálpebras, sossega a razão.
Um episódio de cada vez.
Um segundo, dois e três...
Segue o tempo
segundo, minuto, hora, dia, semana e mês após mês...
Novos episódios, acontecimentos,
novas circunstâncias, novas verdades
Outros tempos, outros momentos.

adc

julho 13, 2007

Leitura

Leio vontades no brilho do olhar.
Traço novos planos ao sabor de cada beijo.
Desenho na pele o caminho de cada desejo.
Leio nos raios de sol contos de encantar.
Aqueço ao sol dos murmúrios de cada suspiro.
Arrefeço ao sabor da distância de cada imagem.
Leio o obrigatório, o proibido, o perigo .
Registo as regras no ouvido, no umbigo.
Apago arranhões, hematomas do que dizem.
Leio, mais uma vez, o gesto, o riso no abraçar
e deixo-me por lá ficar, amar.

adc

julho 04, 2007


Mão gelada, pequena, cerrada

dentro da tua.

Protege, cuida, abriga, guarda

da luz do sol , da sombra da lua.


adc

junho 16, 2007

Tudo


Tudo é para ti.
As palavras
murmuradas, escritas, proferidas, ditas, gritadas.
Tudo é para ti.
O meu acordar
porque não adormeço perto de ti,
insónia sem fim.
Tudo é para ti.
O meu olhar
porque não quero sequer pestanejar,
até que ardam meus olhos de fitar os teus.
Tudo é para ti.
Meu correr apressada atrás do ponteiro dos segundos
porque esperas o meu apressado atraso.
Tudo é para ti.
O bater do meu coração, de suave e decidido
a forte e descompassado.
Tudo é para ti.
Para sentir a tua pele
que me veste, protege na sua sombra.
Tudo é para ti.
O respirar difícil, o inspirar profundo, o expirar quente
da loucura ardente.
Tudo é para ti.
O alimento que provo,
o doce do prazer, o sal de osmose
para que entranhe na tua pele,
processo electroquímico.
Tudo é para ti.
Expressões de tranquilidade, bem-estar
traduzem-se em sorriso e mímica.
Tudo é para ti, por mim, para nós, por ambos.

adc

junho 14, 2007

Distância

Verso ou inverso
Baixo ou cima
Esquerda ou direita
Perfeita ou imperfeita
Sentimentos controversos
De ódio ou estima...

Aconselhável distância

adc

maio 23, 2007

Abraço

Entre o sono apareces
resoluto, sem mais nem porquês,
sem som, só imagem e toque.
Mãos dadas, encostadas as faces
que vejo, que vês?
Pele na pele
que sinto, que sentes?
Desejo, beijo,
abraço tão real, intenso,
pleno de ilusão, impossível
de tão intensa vontade
desse envolver, repousar
em suspirada proximidade.
Segundos de devaneio
abraço, aperto, aninhar
entre ombro e queixo, nesse espaço
como se fosse minha morada esse apertar.
Acordo num sobressalto de tranquilidade,
amanheço na segurança desse tocar,
desperto na quietude do teu abraço.

adc

maio 10, 2007

Vós, quem sois?

Hugs Study by Doug Hyde


Somos os laços que atamos
no caminho empedrado que pisamos.
Somos os nós que apertamos, abraçamos, beijamos
nomes, caras, expressões, pessoas, personagens.
Somos guardados em flashes de sons e imagens
no pestanejar de quem nos ouviu e viu,
somos paisagens.
Somos os vínculos criados
nas ruas, travessas e becos cruzados
com estranhos, conhecidos, colegas, amigos e amados.
Somos todos os abraços sentidos e apertados.
Somos matérias, somos espíritos,
corpos, elementos e ritos.
Somos, ficamos, estamos.
Somos, pertencemos, causamos.
Somos, consistimos, acontecemos.
Somos e desaparecemos.


adc

maio 09, 2007

Impronunciável incoerência

Inconstante
amigo, amante
aterra por aí.
Incoerente
tão igual e tão diferente.
Inconsequente,
mede o que lá vem.
Inacessível com filtro...
fumado até à última.
Incompreensível
atracção.
Inexplicável
luz do dia
Apetecível
amendoim salgado,
fatia de bolo de chocolate.

adc

maio 03, 2007

Vício

Vício das palavras
Afastamento do normal no discurso
Acção imoral de jogar com palavras
Impertinência de frases e sintagmas
Libertinagem de rimas e ritmos
Corruptas associações de vocábulos
Lasciva composição de termos
Redacção de sílabas ordenadas
Só para registar ansiedades de campos semânticos diversos
E a fascinação pelos sons padronizados, persistentes na minha razão.

adc