maio 09, 2007

Impronunciável incoerência

Inconstante
amigo, amante
aterra por aí.
Incoerente
tão igual e tão diferente.
Inconsequente,
mede o que lá vem.
Inacessível com filtro...
fumado até à última.
Incompreensível
atracção.
Inexplicável
luz do dia
Apetecível
amendoim salgado,
fatia de bolo de chocolate.

adc

maio 03, 2007

Vício

Vício das palavras
Afastamento do normal no discurso
Acção imoral de jogar com palavras
Impertinência de frases e sintagmas
Libertinagem de rimas e ritmos
Corruptas associações de vocábulos
Lasciva composição de termos
Redacção de sílabas ordenadas
Só para registar ansiedades de campos semânticos diversos
E a fascinação pelos sons padronizados, persistentes na minha razão.

adc

abril 21, 2007

Apenas uma lágrima

Apenas uma lágrima
rola na minha face.
Valerás apenas uma
dolorosa, intocável...?
Pelo menos tudo molhasse.
Fosse um rio, um lago, um mar
gritando em tempestade.
Apenas uma lágrima
evaporou, condensou e é nuvem.
Valerás um céu cinzento?
A lágrima já não vem,
perdeu-se na sua queda
e enxugou ao vento.
Não posso pagar nessa moeda!

adc

abril 16, 2007

Num sol laranja de final de tarde,
Relembro-te num pestanejar de saudade,
Recordo-te salgado e alheado.
Entre a melodia electrónica e o ritmo natura,
O som do mar ou a luz de projectores,
A adrenalina de deslizar ou o deleite da caminhada serena,
A imagem tua perdura
Sempre que vieres, sempre que fores.

adc

abril 01, 2007

Por favor

Faz-me o favor
de não perturbar
esta minha harmonia.
Faz-me o favor
de não reordenar
as prioridades do meu dia.
Faz-me o favor
de me deixar entregue
à minha confortável narcolepsia.
Faz-me o favor
de me soltar
tranquila no meu bem e no meu mal.
Faz-me o favor
de me permitir
não ser convencional.
Faz-me o favor
de não alterar a minha posição fetal.
adc

março 29, 2007

Luz

Luz ténue, imagem desfocada e rasto de incerteza,
Farol distante para que não choque,
Lanterna intermitente de inquietude.
É invisível a beleza!
Escureceu para que se não toque,
Para que se não altere ou mude
Quando nasce o dia?
De sombra em sombra,
Arrasta vontade e fantasia.
Já naufragou no intervalo do farol,
Na névoa da indecisão,
No apagar da lanterna impaciente
Sem raio de Sol,
Não ilusão,
Estado dormente.
Afundou no mar da tranquilidade
Não da Lua, do interior
Longe da não verdade
Da noite sem calor.
Luz de presença
Da minha ausência.

adc

março 22, 2007

Paisagem

A espuma das ondas rola na areia
em flocos leves de algodão que se desvanecem.
O vento insiste num assobio constante,
tudo em seu redor se despenteia.
A areia imita um nevoeiro intenso
numa tempestade brilhante.
As dunas vão decerto se mover.

A gaivota paira no mesmo espaço sem horários a cumprir.
O Sol intenso aclara o gelado entardecer.
As ondas sucedem-se em desalinho, despenteadas, num tom esverdeado
parecem indecisas em chegar à praia.

adc

março 18, 2007

Podes crer sem motivo?
Não creio, somente sobrevivo...
Ou não?!
Podes acreditar sem razão?
Foge o entendimento
Do que vive fora do coração.
Podes recear sem causa?
Com ou sem questão
Caminho a controlar, evitar.
Podes confiar sem porquê?
Cativando, hipotecando o viver
Ou...
Cativando e fascinando o olhar.

adc

março 11, 2007

Entre meio

Entre nós
há tu, eu,
luz, olhar,
há pequenos nós
que se entrelaçam e desatam.
Entre, no meio
o que escureceu,
o que ficou para dar,
há todo o espaço
para o que faço e não faço.

adc

março 07, 2007

Escreve-me

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca

março 05, 2007

Ainda que mal


Ainda que mal pergunte,

ainda que mal respondas;
ainda que mal te entendas,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda, assim, pergunto:
me amas?
E me queimando em teu seio,
me salvo e me dano...... de amor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

fevereiro 21, 2007

Longo corredor

Oito portas encostadas
Média-luz
Vazio, estreito
Portas cerradas
Meio escurecido
Paredes nuas
Portas entreabertas
Glacial, insensível, indiferente
Tecto sem cor
Jamais despertas
Ocupa cantos
Preenche espaços
Tranca as portas
Segue em frente
Na penumbra insistente
Desse longo corredor

adc

fevereiro 13, 2007

Where do I live

Viver para dentro, absorvendo o espaço exterior!
Permanecer num paradigma sem equilíbrio, sem a sintonia que todo o universo impinge! Sem exposição solar... à luz de outros olhos.
Arrastar-se já pelo tempo, dos dias, dos anos, sem adicionar nem questionar.
Não medir, não pesar, não reflectir a própria imagem.
Sem retorno ou rewind. Don't measure! Please, rewind me back there...

fevereiro 12, 2007

Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny