março 11, 2007

Entre meio

Entre nós
há tu, eu,
luz, olhar,
há pequenos nós
que se entrelaçam e desatam.
Entre, no meio
o que escureceu,
o que ficou para dar,
há todo o espaço
para o que faço e não faço.

adc

março 07, 2007

Escreve-me

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca

março 05, 2007

Ainda que mal


Ainda que mal pergunte,

ainda que mal respondas;
ainda que mal te entendas,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda, assim, pergunto:
me amas?
E me queimando em teu seio,
me salvo e me dano...... de amor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

fevereiro 21, 2007

Longo corredor

Oito portas encostadas
Média-luz
Vazio, estreito
Portas cerradas
Meio escurecido
Paredes nuas
Portas entreabertas
Glacial, insensível, indiferente
Tecto sem cor
Jamais despertas
Ocupa cantos
Preenche espaços
Tranca as portas
Segue em frente
Na penumbra insistente
Desse longo corredor

adc

fevereiro 13, 2007

Where do I live

Viver para dentro, absorvendo o espaço exterior!
Permanecer num paradigma sem equilíbrio, sem a sintonia que todo o universo impinge! Sem exposição solar... à luz de outros olhos.
Arrastar-se já pelo tempo, dos dias, dos anos, sem adicionar nem questionar.
Não medir, não pesar, não reflectir a própria imagem.
Sem retorno ou rewind. Don't measure! Please, rewind me back there...

fevereiro 12, 2007

Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny

fevereiro 11, 2007

Desafio-te desajeitadamente

desafio-te
desembrulho-te
desarrumo-te
desoriento-te
desato-te
desencanto-te
desenlaço-te
desacerto-te
desaconselho-te
desafino-te
desalinho-te
desaparafuso-te
desarmo-te
descontrolo-te
desafio-te
desejo-te

adc

Conversa

Evito sempre as despedidas... mas fico sempre até ao fim, custe o que custar! Não tem que ser uma despedida... poderás voltar daqui a uns dias, semanas... podes reformular-te, reinventar-te... ou permanecer idêntico a ti próprio.

Eu não escrevo para os outros. Recuso-me a tal! Escrevo para mim, sobre os outros... escrevo para dentro. Só assim faz sentido!
É muito difícil escrever porque queremos sempre superar-nos, a cada dia. Sem repetições, sem frases feitas... com sentido crítico, mordazmente escrever sobre o que nos dá na telha... se não lerem, se não comentarem, se não entenderem, não me incomodo.

Volta mesmo que já tenhas dito que foste... o teu regresso a este bloco de notas, pode ser escrito com o sentido, a cor, a letra... que entenderes.

adc

janeiro 28, 2007

Noi due

Noi due assieme non abbiamo bisogno
di sogni, né di saghe, leggende, riti,
strumenti ad arco, non abbiamo
bisogno di smalti, stucchi, porcellane,
è nitido il motivo a spirale
dei nostri polpastrelli, il foro
uditivo sormontato da una conchiglia
di carne, che sfiorata con mani
o punta di lingua irradia
ovunque la febbre, il tremore,
il precipizio del sangue, è limpido,
abbagliante il senso dei nostri
organi, è chiaro l’uso del fiato,
della saliva, del dito, delle ombre
che passano nello sguardo, è sicura,
sedativa la profondità dei varchi,
delle gallerie, delle pieghe, è buona
la superficie, la punta, la tinta
dei risvolti, la stoffa e la fodera
delle carni. Su questo altare
la bibbia sono le nostre parole
roche, sfuggite per sbaglio, le nenie
dementi. Qui le divinità, tutte,
tacciono, si spengono attònite,
imparano da noi, spasmo per spasmo,
i nutrimenti terrestri.

Andrea Inglese

janeiro 25, 2007

Luzes e vozes

Colecciono sons, murmúrios, vozes
Colecciono imagens, fotografias, luzes
Embalo-me nas vozes que ecoam
Aconchego-me nas luzes que aquecem
Mesmo que os olhos me doam
Esses mesmos olhos não esquecem
Mesmo que os ouvidos emitam
Zumbidos incómodos que entorpecem
Nada mais perturba meu sono
Nada mais condiciona meu eu
Eu reproduzo todas as vozes
Eu antecipo todas as luzes

adc

janeiro 02, 2007

Sempre para sempre

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele
Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante
Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão
Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado
Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue, bem quente
Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca, nunca tocado
Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso
Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada, mas nada
Te faz contente, me faz contente
Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido
Há amor eterno
Sem nunca, talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez
Há amor de certezas
Que não trará dor
Amor que afinal
É amor,
Sem amor
O amor é tudo,
Tudo isto
E nada disto
Para tanta gente
É acabar de maneira igual
E recomeçar
Um amor diferente
Sempre, para sempre
Para sempre

Miguel A. Majer

dezembro 27, 2006

Estrada

Essa estrada
Leva a uma praia
Essa estrada
Guia segura para que não caia
Essa estrada
De linhas curvas é apertada
Aperta, asfixia
Essa estrada de verde ladeada
Perigosa, tortuosa
Essa estrada
Fria, nublada
Enganada, sem ninguém
Nunca existiu essa estrada
A todas as horas
Sem horas, demoras nessa estrada
Essa estrada de vai e vem
Essa estrada
Pouco a pouco despistada
Ainda a percorro
Sem fim, sem princípio
Metro a metro lá morro

adc

novembro 26, 2006

Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

novembro 15, 2006

Ninguém

Procuram sem encontrar, os olhos de ninguém
Olhos de mãe fitam sem pestanejar
Arrefecem sem querer, as mãos de ninguém
Mãos de mãe aquecem até adormecer
Penduram brincos só para se ver, os ouvidos de ninguém
Ouvidos de mãe sem ouvir vão compreender
Enche-se do falso perfume de boiões, o nariz de ninguém
Nariz de mãe sente o aroma de preocupações
Insípida ao beijar, a boca de ninguém
Boca de mãe não come sem alimentar
Ninguém, vive a mentir
Mãe não vive sem sentir
adc