setembro 01, 2006

Picasso - Blue Nude


O Livro dos Amantes IX

Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficámos nas paredes do vento

a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia

agosto 31, 2006

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade

agosto 24, 2006

Quanto de ti, Amor...


Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.


Jorge de Sena

agosto 03, 2006

Pele na pele




Pele na pele
Suave, quente
Murmura tudo
Mas não mente
Pele na pele
Aroma, sente
Entranha e perdura
Calmamente
Pele na pele
Esmaga, aperta
No colo segura
Arranha e fica
Pele na pele
Encosta, aquece
Abraça e não esquece
Pele na pele... ela adormece.

adc

julho 27, 2006

Adeus


(...)

Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la:
Alta está no firmamento
De mais, e de mais é bela
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
Donde me vem sangue às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra - e não cabe
Nele uma ideia dos Céus ... Oh!, vai, vai; deixa-me adeus.


Almeida Garrett

julho 25, 2006

Falso!?

Os olhos são o espelho da alma ou...
The false mirror - René Magritte

Estátua Falsa

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,

Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;

Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,

Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

Mário de Sá-Carneiro

julho 20, 2006

Importuna Razão, não me persigas


Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;

Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.

Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.

Bocage

julho 18, 2006


5 décimas

5 décimas de graus Celsius
suficientes para aquecer
entorpecem os sentidos
sem paladar, sem olfacto
também quase sem ver
na audição só zumbidos
a pele sensível ao tacto
5 décimas de graus Celsius
só com um par de comprimidos
reduzem de todo a vontade
o pensamento abranda
impedem toda e qualquer actividade
nem de pé, nem sentado
nem na cama bem se anda
5 décimas de graus Celsius
já arrefeceu a temperatura
mas não se refizeram os sentidos
que passe esta tremura
de fazer perder a paciência
e os preciosos dias dispendidos

adc

julho 13, 2006

O PRIMEIRO DIA



A princípio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebem-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho

julho 09, 2006



Errante em sentimentos

Cruzando o tempo, dias e semanas

Repetem-se quase de cor

A intuição esgotou-se

O percurso está errado

A incerteza é de tudo o pior

Duas gotas de tinta permanente

Azul na folha pálida

Deixam marca maior

Existência de amargo sabor

adc

julho 02, 2006

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã
E, assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
(...)

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
(...)

Álvaro de Campos