março 21, 2008

Sigo

Faço a mala, viajo para longe de mim,
distante das pessoas que sou.
Rasgo os papéis que escrevo, rascunhos que interpreto
queimo-os no cinzeiro ou a céu aberto.
Faço a mala e digo silenciosamente que não estou,
que vou, rota incerta, estrada aberta, apenas caminhar,
até perder o vagar sem rumo,
assumir um único trilho apagando rastos, sinais, vestigios ou só voltar costas.
Encontrar o equilíbrio, nível, o fio de prumo.
Descobrir-me algures entre decisões
com a bagagem leve, sem necessitar de abrigo.
Faço a mala, por outro atalho, sem pressa... sigo.

adc

março 03, 2008

Concreto vs Abstracto

Torna concreto teus abstractos.
Esculpe visível o sorriso, o olhar brilhante.
Devolve ao perto a presença distante, algo que se possa agarrar... braço, cintura em nó, sem desatar a existência palpável, tocada e abraçada.
Traduz os teus rascunhos em texto legível.
Emite palavras que transformam o inaudível.
Converte o desejo em saborear, substitui a água na boca pelo doce provar, digerir, gostar.
Imagina os sentidos em harmonia.
Transforma as notas florais em perfume de amar, cheira o aroma , a fragrância do abraçar.
Inventa o real dos teus ideais.
Revela concretos os pensados sentimentos, as sensações auxiliadas por figuras de estilo... recursos expressivos concretizando a fantasia.
Mostra quem és no primeiro acto e vive o concreto do pensado abstracto.

adc

fevereiro 28, 2008

Mais do que um beijo
preciso das palavras
que façam sentido, se façam ouvir,
que encaixem no desejo.
Mais do que um abraço
preciso da presença
olho no olho, pele na pele
sem ar, sem tempo ou espaço.

adc

fevereiro 10, 2008

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

fevereiro 06, 2008


Rendo-me, vendo-me às vossas ofertas e aqui estou, na primeira pessoa, a nomear os blogs que me fazem pensar... embora o tempo me escape mais vezes do que as que desejava e não os consiga visitar a todos.


...magia, palavras e outras coisas...


A Papoila


Fora de mim


Impulsos


Instantes de um Louco


Palavras Soltas... Letras Trocadas


Ponta Solta


Serenismo


Taradisses


... entre outros.

Agora terão que indicar outros blogs que não vos saem da cabeça ou que por uma razão ou outra vos perseguem... ;)

Agradecida pelas outras ofertas.

janeiro 28, 2008

Espaços vazios

Preenche os espaços vazios, a cadeira, o lugar à mesa, o copo, o prato.
Preenche as horas do final do dia. Ocupa os segundos que teimam escapar, tempo de espera, tempo que mato.
Preenche o silêncio que adormece.
Abre a gaveta vaga, usa a toalha do par.
Ocupa a almofada do lado, substitui a noite que arrefece.
Escreve nas linhas, nas margens das folhas.
Liga o interruptor e prenche de luz tudo que olhas.
Ouve as palavras e responde às questões... segredar, murmurar. Formula respostas que tapam as fendas do caminho a pisar.
Preenche os espaços vazios da boca, do respirar, o espaço vazio das mãos.
Obriga-me a abrir a janela pela manhã.
Preenche o escuro com luz do sol e sal do mar.
Balança a minha tranquilidade e alimenta o meu acordar.

adc

janeiro 17, 2008

Frestas


Uns com imenso tempo... outros com escasso.
Uns com escassas palavras... outros com imensas.
De tempo e palavras, preenchemos as frestas do chão que pisamos!

adc

dezembro 17, 2007

Quantificar a dor em miligramas de morfina,
medindo o equilíbrio na dosagem...
procurando o alívio no mundo dos sonhos.
O auxílio de Morfeu,
na sonolência abrigando-se
a dor de alterada imagem do exterior e interior do eu.
Quantificar o sofrimento em lágrimas, em cápsulas
da dor que sabe a sal e não passa na epiglote,
geme e zune no tímpano,
se espalha nas terminações nervosas livres
e rasga a pele... por dentro, por fora.
Rasga o tempo pretérito
mergulha no tempo agora.
Mede o poder de um sorriso
sem esforço, espontâneo.
Essa dor que vi em ti,
entranhou em mim sem consentimento
despedaçando a expressão do olhar,
dilacerando a consistência do sentimento do juízo.

adc

novembro 27, 2007

Reticências


Somos equidistantes pontos em dimensões diversas.
Com paralelas intenções em matriz desigual.
Em equilíbrio deslocas-te, em ciclo, simetria.
Encontro-te em linha diagonal, vertical, horizontal.
Qualquer língua sem fronteira, pronunciamos com limite.
Corpos submersos e razão vadia...
Marcados na pele, nos gestos, aroma, olhar sem névoa ou bruma.
Riscados, rabiscados em cada página, rasurada a escrita e a imagem.
Plena de reticências... vazia de ser, de estar...
Profere qualquer palavra que se preze, registe e não suma.
Abriga-me no canto da folha, dentro de ti e fora da margem.


adc

novembro 11, 2007

Vislumbres instantâneos do que foi real... fotografia polaroid esbatida pelo tempo. O pretérito é já ficção.

adc

novembro 01, 2007

Registo

Abri o livro
e deixei-te registar a tua presença, a tinta permanente.
Com lacre selaste a página,
como se este fosse teu abrigo.
Rodeaste-me, sublinhaste-me, atribuí-te esse poder.
Permiti-me corpo sentido e razão ausente,
melodias, rasgos de luz, raios de sol... Ninguém imagina.
Colori imagens, fragmentos da vida
a guache azul e sol purpurina.

adc

outubro 23, 2007

Sentar no chão e encostar na parede
O fumo trespassa a teia
O céu esconde-se nublado
A erva cresce no pó
Ao longe o trânsito
Os outros quintais sem pressa e sem sede
Uma vassoura perto
A música, lá dentro, só
A roupa nos estendais
Paz e que mais?

adc

outubro 18, 2007

...arepse ad atlov à oiasnE


Espera ficar ocupado para não sentir
Viver os teus sonhos sem dormir.
Espero que respondas e o sol rasgue as nuvens para eu respirar.
Que se dissipe toda essa neblina...
Sem levantar qualquer outra questão.
Aguarda, confia no olhar, na emoção.
Porquê?
Porque não?
Porque não termina?
Porque insistes em esperar?
adc

outubro 08, 2007

Ensaio à volta da espera - 6

E... se agora, vos deixasse a todos à espera?


adc