julho 18, 2006

5 décimas

5 décimas de graus Celsius
suficientes para aquecer
entorpecem os sentidos
sem paladar, sem olfacto
também quase sem ver
na audição só zumbidos
a pele sensível ao tacto
5 décimas de graus Celsius
só com um par de comprimidos
reduzem de todo a vontade
o pensamento abranda
impedem toda e qualquer actividade
nem de pé, nem sentado
nem na cama bem se anda
5 décimas de graus Celsius
já arrefeceu a temperatura
mas não se refizeram os sentidos
que passe esta tremura
de fazer perder a paciência
e os preciosos dias dispendidos

adc

julho 13, 2006

O PRIMEIRO DIA



A princípio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebem-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho

julho 09, 2006



Errante em sentimentos

Cruzando o tempo, dias e semanas

Repetem-se quase de cor

A intuição esgotou-se

O percurso está errado

A incerteza é de tudo o pior

Duas gotas de tinta permanente

Azul na folha pálida

Deixam marca maior

Existência de amargo sabor

adc

julho 02, 2006

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã
E, assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
(...)

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
(...)

Álvaro de Campos

junho 29, 2006

Vou atrás

Vou atrás do teu silêncio
Não sei se falo
Ou calo
Não sei se ligo
Ou desligo
Vou atrás do teu silêncio
Não sei se escrevo
Ou apago
Não sei se devo
Fazer aqui um rasgo
Vou atrás do teu silêncio
Não sei se deixo andar
Ou preciso de travar
Vou atrás do teu silêncio
Onde vai o teu silêncio?
Será que tem pernas para andar
Asas para voar
Fica estático para o apanhar
Estacionado em algum lugar
Faz marcha-atrás
Ou simplesmente, pelo caminho vai rolar?

adc

junho 28, 2006

O círculo...




O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.

Ana Hatherly

junho 16, 2006

Sem Pensar

Na guerra
na aventura
na Serra
no azul do céu
no teu azul
no transformar das espigas
em branca farinha
em nuvem fofinha
em neve que derrete
na água que te refresca
no Sol que me aquece
pudesse eu saber o que espera
pudesse eu mergulhar na Natureza
como tu o fazes
pudesse eu guardar a tua tranquilidade
pudesse eu não mais sentir ansiedade
viver a sério
viver cada segundo
sem pensar, sem querer, só como tu viver

adc

junho 13, 2006

"Veinte poemas de amor y una canción desesperada"



Quanto não te doeu acostumar-te a mim,
à minha alma solitária e selvagem, a meu nome que todos
afugentam.
Tantas vezes vimos arder o luzeiro nos beijando os olhos
e sobre nossas cabeças destorcer-se os crepúsculos
em girantes abanos.
Sobre ti minhas palavras choveram carícias.
Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado.
Chego a te crer a dona do universo.
Te trarei das montanhas flores alegres, copihues,
avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos.

Quero fazer contigo
o que a Primavera faz com as cerejas.

Pablo Neruda

junho 12, 2006

A TORRE



Ele queria uma torre
alta
para a sua alma.
Eu, se quisesse
alguma coisa seria um rio;
um rio onde dormir
com a luz destas pedras por navio.

Eugénio de Andrade

junho 08, 2006

De um professor que me deixou boas recordações...

APELO

Se a porta está fechada
abre-me a porta!
Se já a abriste
e eu é que não vejo,
Abre-me os olhos!

Espero uma abertura.
Noel Ferreira

junho 06, 2006

Ocimum minimum Labiatae


Como se fossem tréguas
Ofereceste-me a pequena planta.
Sabias bem o que fazias!
Ando à deriva há dias
Conduzindo pelas ruas
Irritada pelas preocupações tuas.
Volto a casa
E como uma manta
O seu aroma
Aconchega todos os recantos
Convidando a entrar
Sentindo o teu amar.
Descontraída fico
Por saber que estás aí
Por saber que estás aqui
Na presença do aroma
Do teu manjerico.

adc

junho 04, 2006

LIBERDADE

Vivemos com o peso do passado e da semente

esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada

só se pode querer tudo quando não se teve nada

só quer a vida cheia quem teve a vida parada

só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão habitação saúde educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

Sérgio Godinho

Nêsperas


Quando é pura a alma
Quando a relação perdura
Nada melhor que receber
Um sorriso, uma presença doce e calma
Um saquito com nêsperas
Douradas, amarelas, alaranjadas
Açucarada a cumplicidade
Glicolisada a amizade
As nêsperas consomem-se
Mas a lembrança de ti
Continuará na fruteira
Uma vida inteira

adc